domingo, 14 de abril de 2013

Publicado por Tião Lucena em 14.04.2013

Meu amigo Dorgival



Não cheguei a conviver com Dorgival Terceiro Neto no dia a dia das redações de jornais porque, quando cheguei em A União ele já era vice-governador. Avistei-o pela primeira vez numa solenidade, mas foi de longe, tão longe que mal dava para ouvir a sua voz.
Vi-o de perto na sua posse como governador. Ivan Bichara deixava o cargo para disputar o Senado e Dorgival, na condição de vice, assumia o Governo para um mandato tampão.
A solenidade de transmissão de cargo foi no Palácio dos Despachos, em Jaguaribe. Vi a parte pública, aquela onde o governador que sai passa a faixa para o que entra e o empossado desfila garbosamente, em revista à tropa perfilada.
-Vamos acabar logo com isso, Ivan – falou um apressado Dorgival para um descansado e formal Ivan Bichara. E assim foi feito: Ivan passou a faixa a Dorgival, que, por um dever formal do cargo, passou em revista a tropa num marchar tão ligeiro que o maestro quase não termina de tocar o dobrado.
Dias depois o conheci de perto, numa festa da imprensa. Conversamos. Foi a primeira vez que conversei com um governador. E fui tomado pela surpresa de descobrir que governador era uma pessoa como outra qualquer, talvez porque o governador da minha estréia tenha sido Dorgival Terceiro Neto, matuto como eu e, feito eu, tão matuto que nem as vestes governamentais foram capazes de transformá-lo no homem chique que muitos queriam.
Ficamos amigos, quando nos víamos nos cumprimentávamos.
Veio a eleição de 82, a primeira direta do período revolucionário. Wilson Braga, apoiado pela Arena, disputava com Antonio Mariz, do PMDB. Comício em Princesa, João Agripino, Pedro Gondim, Zé Maranhão e Antonio Mariz chegando à cidade e sendo recebidos por uns gatos pingados sem votos, sem dinheiro e muito atrevidos, enquanto as forças tradicionais do município preferiam a comodidade palaciana. Dorgival não foi convidado para o encontro. Mas soube dele uma semana antes por intermédio deste escrevinhador.E o que ele fez? Pegou o seu carro, saiu dirigindo pelos buracos de Teixeira, fez um belo discurso pedindo votos para Mariz e registrou que se encontrava em Princesa, terra do seu amigo Tião Lucena.
Os anos nos aproximaram. Já éramos colegas de Procuradoria, ele brilhante escritor, imortal da Academia, mas simples como sempre, pitando seu cigarro e caminhando pelas ruas do centro com aquele paletó esvoaçante cobrindo aquele corpo comprido que o destacava na multidão.
Quando lancei meu livro “1930 – A História de uma Guerra”, ele foi lá sem que eu precisasse convidar. Recebeu um exemplar, me abraçou e dois dias depois deixou na minha repartição, por não me encontrar pessoalmente, anotações do próprio punho apontando as falhas e omissões do livro. Ainda hoje guardo o bilhetinho.
Tempos depois, na coluna que escrevia no Correio da Paraíba, manifestei o desejo de conhecer a história de Ildefonso Lacerda, o médico que foi assassinado em Princesa no começo do século passado, por amar uma jovem do lugar, Dulce.
Surgiu Dorgival de novo, trazendo uma pequena crônica contando a história do moço e fazendo mais: dando-me de presente o original do memorial que o capitão Erasmo Barros, pai de Dulce e sogro de Ildefonso, escreveu denunciando o crime e pedindo justiça ao Chefe de Polícia. Foi graças a esse documento que escrevi o livro “Peste e Cobiça”, contando as desventuras e os amores desses dois jovens.
O último contato com Dorgival aconteceu em meados de fevereiro, durante a aula show de Ariano Suassuna, na Estação Ciências. Sentei-me perto dele e senti que não estava bem. Fazia anos que lutava contra uma mouquice e parece que naquela noite a coisa estava acentuada. Tanto estava que lhe fiz uma pergunta e, como não conseguiu escutar, desabafou alto com um “velhice é uma droga!”, levantou-se e foi embora.
Neste domingo Dorgival será enterrado na Taperoá que ele tanto amava, tanto adorava e por ela tanto fez. Uma Taperoá que, confesso com o coração partido, foi mais madrasta do que mãe ao filho ilustre, pois até na hora de homenagear quem lhe parecesse destaque no portal de entrada da cidade, estampou a figura de um Ariano Suassuna que nasceu em João Pessoa, em detrimento ao único filho da terra que chegou ao cargo de governador do Estado.

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