O jornalista Rubens Nóbrega comenta nesta quinta-feira (03) em sua coluna no Jornal da Paraíba os detalhes dos processos movidos contra ele pelo Governador da Paraíba, Ricardo Coutinho (PSB). Rubens diz não temer os processos, que ele considera uma afronta ao direito à comunicação e ao livre pensamento, considerando-os tentativa de calar a sua voz e de censurá-lo.
Rubens diz que sempre teve uma postura crítica em relação aos governos estaduais, citando os governos de Wilson Baga, Ronaldo Cunha Lima, Cássio Cunha Lima e José Maranhão e até admite excessos em alguns artigos. Mas afirma que nunca foi processado por qualquer um deles.
“Desses 40 anos, por 38 mantive-me invicto de ações judiciais do gênero. Coube a Ricardo Coutinho quebrar-me a invencibilidade da qual me orgulhava. Agora, orgulho-me de estar sendo processado por Ricardo Coutinho”, diz Rubens.
O Blog Carlos Mano considera os processos uma afronta ao bom jornalismo e lembra a Ricardo Coutinho que um dia existiu um escritor e filósofo francês chamado Voltaire, que disse algo que, até hoje, deve ser lembrado. Sobretudo por governantes que se acham donos da razão: “Posso não concordar com uma só palavra do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-la”. Pense nisso, governador.
Confira, na íntegra, o comentário de Rubens Nóbrega em sua coluna desta quinta-feira:
Processo algum vai me calar, Ricardo
Desculpem se adiante pareço cabotino, mas peço licença aos leitores para cuidar hoje de um assunto que até ontem mantive fora desta coluna por julgar que estava enfrentando uma reação de natureza estritamente pessoal.
Desde anteontem, todavia, ao receber mais uma notificação judicial para apresentar defesa em mais uma ação judicial que me move o governador Ricardo Coutinho por suposta ofensa, concluí que sou alvo de uma atitude política.
Pior: alvo a ser abatido ou, no mínimo, inibido, cerceado, censurado, constrangido ou compelido a se calar ou a se conter covardemente no seu exercício de crítica, no seu direito de opinião, na sua liberdade de expressão.
De qualquer forma e sorte, não vai funcionar. Não temo a judicialização como estratégia de intimidação nem acredito que venha a ser condenado, com sentença transitada em julgado, por supostamente ter usado de ‘malícia’ ou ‘insinuações’ nas referências ao autor, como está dito em uma de suas – data vênia – risíveis petições.
Não tenho como acreditar também que em última instância venha a ser condenado por lembrar em determinada coluna, por exemplo, que foi o senhor Ricardo Coutinho e não o senhor Luciano Agra quem terceirizou a merenda das escolas públicas da Capital a uma empresa processada pelo Ministério Público em outros estados por fraudes em licitações e outros ilícitos.
Refiro-me à SP Alimentação, que, inclusive, teve o seu dono preso ano retrasado em operação da Polícia Federal que visou desmantelar esquemas de corrupção no fornecimento de merenda escolar.
Furadeira rende-me outro processo
Não devo nem posso admitir também que a Justiça do meu país venha a condenar um jornalista por ter comentado ou noticiado, como quase todos deste país criticaram ou noticiaram, a história do uso de furadeira elétrica, doméstica, em cirurgias no Hospital de Trauma.
A famosa furadeira do Trauma foi manchete nas maiores redes de televisão, nas emissoras de rádio de maior audiência, nos jornais de maior circulação, nos portais e blogs de Internet mais acessados...
Não sei se Ricardo Coutinho processou qualquer desses veículos ou seus colunistas, repórteres, blogueiros. Sei que está me processando e a este Jornal que me acolhe. E, o que é pior, pedindo que a Justiça me proíba de tocar no assunto novamente, ou seja, trata-se de tentativa explícita de censura pela via judicial.
Ironia é motivo de uma terceira ação
A última – ou a mais recente – peça da pretensa ira processante do governador corre por conta de um artigo irônico no qual ressaltei a capacidade de Sua Majestade de atrair empresas para o Estado.
Dei como exemplos, entre outras, a Líder (coletora de lixo da Capital), a própria SP Alimentação (merenda das escolas municipais), Ideia Digital (Jampa Digital) e a Cruz Vermelha (Hospital de Trauma).
Evidente que não desconheço o direito do senhor Ricardo Coutinho de acionar judicialmente quem ele queira, ainda que eventualmente isso possa ser entendido como litigância de má fé ou arma contra quem ele tem na conta de adversário ou desafeto.
Por meu turno, em razão da natureza dos motivos que elegeu para me processar, tenho também todo o direito de considerar suas ações judiciais o mais sórdido.
Nunca antes nessa minha história
Mais seis meses completo 40 anos de jornalismo. Comecei em março de 1974, no saudoso O Norte. Nesses quatro decênios, já fiz e fui praticamente tudo na imprensa paraibana, de revisor a editor geral, de repórter a colunista dos principais diários e revistas semanais da Pequenina.
Posso dizer ainda que, além de jornalista, fui também jornaleiro. Editei e pessoalmente distribui nas bancas e entreguei meia dúzia de assinaturas de um quixotesco tabloide de-vez-em-quandário chamado Jornal da Gente que cometi em parceria com o Mestre Gonzaga Rodrigues no já distante ano de 1988.
Por essas e outras, de quem acompanha o meu trabalho espero pelo menos o reconhecimento, se o fizer com lealdade intelectual, de que quase sempre fui muito crítico em relação aos governos em geral e aos governantes estaduais em particular.
De Wilson Braga a Ronaldo Cunha Lima, de Cássio a José Maranhão, admito que em artigos, crônicas ou reportagens possa ter sido injusto com algum deles ou todos eles em algum momento. Mas, jamais, leviano no falso. Falso no sentido de falsear de público o que externei sobre eles em privado ou em desconformidade com o meu real pensamento acerca dos atos daqueles senhores, dos governos daqueles senhores.
Apesar disso, nenhum deles me processou, nenhum deles foi à Justiça se dizer ofendido por uma crítica mais dura ou por um comentário mais sarcástico que lhes tenha dirigido nos espaços de análise ou crônica política que me foram confiados.
Desses 40 anos, por 38 mantive-me invicto de ações judiciais do gênero. Coube a Ricardo Coutinho quebrar-me a invencibilidade da qual me orgulhava. Agora, orgulho-me de estar sendo processado por Ricardo Coutinho.
Do Blog Carlos Magno, com Jornal da Paraíba
Nenhum comentário:
Postar um comentário